terça-feira, 23 de junho de 2009

Lembrança sólida

Uma ilha. Fim de férias. Malas espalhadas. Ônibus na porta do hotel e dezenas de pessoas em movimento, check-out, arrumações e despedidas... Haianna conferia suas malas, se estavam todas ali. Poderia perder o horário, sua mente estava cheia, queria lembrar se não tinha esquecido nada... De repente, seu pensamento é interrompido, por Samir, um menino alvo, lábios corados, olhos redondos. Estava com um sorriso maroto, bem característico seu, mas agora parecia ser de quem escondia algo, um de seus braços estavam para trás.
Estava distraída, mas sentiu vontade de se concentrar nele. Haianna conseguiu se desprender da dinâmica do momento, e olhou para mão estendida à sua frente. Sua testa franziu numa tentativa de decifrar aquilo. Era verde, parecia uma semente grande. Era um mini coco, menor que o dorso de uma mão. Ficou na dúvida da finalidade daquilo, mas, sensível à atitude e expectativa dele, ela pegou, sorriu, e demonstrou afeição pelo coquinho... Samir disse que era pra guardar como lembrança... Ela achou diferente, então, veio à sua mente o seu fascínio por plantas, bichos, eco e afins... Sorriu pra si mesma e percebeu que era importante pra ele, então decidiu que seria pra ela também.
Depois de dias... Lá estava ela em seu quarto, queria um lugar para o querido coquinho... Afinal, não poderia se desfazer... Era a lembrança. Arrumou um espaço no cantinho da gaveta de quinquilharias da cômoda. Não era o local mais nobre, mas ali estaria seguro e não perderia facilmente. O tempo passou e ele já não estava mais verde, foi diminuindo e não tinha nenhuma beleza, estava marrom, seco e sem vida. Jogou-o fora. Lamentou pelo destino da lembrança. Mas fazer o quê, se era tão frágil... Pensou que assim também seria o desfecho daquela história.
Engano. O curso dos humanos é diferente dos da natureza. Envolve escolhas, sentimentos, vontades e empatias... Depois de alguns meses em um e-mail, a resposta, outro e-mail e assim sucessivamente... Até um dia chegar às mensagens instantâneas e longas conversas por janelinhas...
Samir era daqueles que come quieto, característico de sua terra. Do tipo que aos poucos conquista espaço e não se substitui facilmente. Misterioso, desconfiado e doce. Complexo. Cheio de idéias e pensamentos que pareciam não conter em si. Irônico e sarcástico conseguia ser gentil e ensinável, ao mesmo tempo. Às vezes parecia tonto. Ilusão. Devido sua inteligência perceptível e esperteza, se fazia de tal.
Um ano passou. Companhia, conselhos, risadas... Dois anos, cotidiano, problemas... Três anos... Eles estavam diferentes, mais maduros, experiências, decepções... Quatro anos e entre idas e vindas, brigas, longos períodos de silêncio... O tempo os fez aprender um com o outro e nem se deram conta disso.
Lembra história de romance... Mas que nada. Cada um teve e tem seus amores. O que tiveram foi maior. Um compartilhar de prazeres e dissabores... Algo que, incrivelmente, transpôs a distância, espaço, razão e todos os fatores que não conseguiram separar esses corações. Que, ao contrário do coquinho, cresceu, ganhou forma, beleza e desenvolveu uma atividade interna significativa e peculiar dos seres humanos... Uma amizade.

sábado, 20 de junho de 2009

Solidão

"A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...
Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão...
...As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis. “Como se comporta a Sua Solidão?” Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.
Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.” Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.
Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação...
Tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão.
A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada) dos outros, em celebrações cheias de risos...Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira."

[Trechos do artigo A solidão Amiga de Rubem Alves, 2002]

Muito bom!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

"A perseverança não é apenas a capacidade de suportar uma coisa difícil, mas de torná-la em glória".

[Citação de William Barclay, no livro de Philip Yancey, p.163]

Frase forte. Uma busca.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Prece...

"Nessa mesma noite gaguejara uma prece para o Deus e para si mesma: alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte e sim a vida, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade e paciência comigo mesma, amém."

[Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, p. 113]

terça-feira, 16 de junho de 2009

Mimo...

Era por volta de onze da manhã, fazia frio e estava na minha solidão matinal concentrada no PC, quando fui surpreendida por um recado no MSN, era o Hallen perguntando sobre o meu almoço...

Hallen é um amigo que fiz a pouco tempo na nova cidade, rapazinho precoce..rs Posso assim dizer, em função de sua liderança com os jovens da igreja, no alto de seus 18 aninhos recém completados. Jeito de menino brincalhão, esperto, com um sorriso aberto e de aparelhos, chama atenção pela sua altura e sua empolgação. Estes dias convivemos mais, entre uma tirada e outra com muitas risadas, sempre inquieto, ora irônico, ora sério, ouvia atentamente meus conselhos sobre sua liderança.

Dona D. viajou este final de semana e fiquei sozinha em casa durante o longo feriado. Ele, ao perceber minha agonia para programar atividades com os jovens, uma tentativa de fugir do tédio e, porque não da dor... Incorporou o espírito da coisa e não só organizou uma festinha com os jovens, com direito a UNO e filme, como também me fez companhia. A programação foi desde um casamento que não fomos convidados e barrados na porta da festa a jogar totó com a turma depois do culto de domingo no “Hot Dog do Dedé”, com direito a gritos e vibrações a cada gol. rs.. Para a rotina deste lugar... Isto foi, no mínimo, muito divertido.

E voltando à pergunta, eu disse que não tinha pensado em nada. Ele respondeu: _Vou preparar comida pra vc! Achei engraçado... e depois de trinta minutos, ouço alguém chamando: _ Leninha!!! Era sua mãe, Cidinha, tão querida quanto o filho, estava à porta junto dele com um prato quentinho de comida. Nunca tinha visto isto, será coisa de interior? Prefiro acreditar que tenha sido um mimo de Deus.

Dizem que a felicidade está presente nas pequenas coisas que passam despercebidas em nossas vidas... Em especial, esta não passou. E hoje, sem dúvida, fui mais feliz. *-*

domingo, 7 de junho de 2009

Vida

A vida é emoção.
A vida é mistério.
A vida é triste.
A vida é bela.
A vida é trágica.